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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Num ápice...

"(...) Então pela primeira vez nos apercebemos que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegamos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva (...)"


(Primo Levi, "Se é isto um Homem")





sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Pinheiro iluminado




"(...) De facto, seguindo esses rastos, depressa chegou à pequena aldeia dos lenhadores. Todas as portas se abriram, e os homens da floresta reconheceram o Cavaleiro que rodearam com grandes saudações.
Este penetrou na cabana maior e sentou-se ao pé do lume enquanto os moradores lhe serviram pão com mel e leite quente.
— Já pensávamos que não voltasses mais — disse um velho de grandes barbas —.
— Demorei mais do que queria — respondeu o peregrino
— Mas graças a Deus cheguei a tempo. Hoje antes da meia-noite estarei em minha casa.
— É tarde — disse o velho — o dia já escureceu, vai nevar e de noite não poderás caminhar.
— Nasci na floresta — respondeu o peregrino — conheço bem todos os seus atalhos. Seguindo ao longo do rio não me posso perder.
— A floresta é grande e na escuridão ninguém a conhece. Fica connosco e dorme esta noite na minha cabana. Amanhã, ao romper do dia, seguirás o teu caminho.
— Não posso — tornou o Cavaleiro —, prometi que estaria hoje em minha casa.
— A floresta está cheia de lobos esfomeados. Que farás tu se uma matilha te assaltar?
Mas o Cavaleiro sorriu e respondeu:
— Não sabes que na noite de Natal as feras não atacam o homem?
E tendo dito isto levantou-se, despediu-se dos lenhadores, montou a cavalo e seguiu o seu caminho.
Dirigiu-se para a esquerda procurando o curso gelado do rio. Mas mal se afastou um pouco da aldeia a neve começou a cair tão espessa e cerrada que o Cavaleiro mal via.
— Depressa — pensava ele —, tenho de chegar depressa ao pé do rio. E puxando mais o capuz para a testa continuou a avançar.
Mas o rio não aparecia, e a noite começou a avançar.
O homem parou e escutou.
— Era mais prudente voltar para trás — pensou ele —.Mas se eu não chegar hoje, a minha mulher, os meus filhos e os meus criados pensarão que morri ou me perdi nas terras estrangeiras. Passarão um Natal de tristeza e aflição. E preciso que eu chegue hoje.
E continuou para a frente.
Agora nenhum ramo estalava e não se ouvia o menor rumor. Os esquilos, as raposas e os veados já estavam recolhidos nas suas tocas. O cair da neve parecia multiplicar o silêncio.
E o rio parecia ter-se sumido.
— Talvez me tenha enganado no caminho — pensou o Cavaleiro —, vou mudar de direcção.
E virou um pouco mais para a esquerda. Mas continuou a escurecer, a neve continuou a cair, o silêncio continuou a crescer e o homem e o rio não se encontravam.
E devagar anoiteceu mais.
As horas uma por uma foram passando e longamente o Cavaleiro avançou perdido na escuridão.
Por mais que se enrolasse no seu capote, o ar arrefecia-o até aos ossos e as suas mãos começavam a gelar. Já não sabia há quanto tempo caminhava, e a floresta era como um labirinto sem fim onde os caminhos andavam à roda e se cruzavam e desapareciam.
— Estou perdido — murmurou ele baixinho —. Então a treva encheu-se de pequenos pontos brilhantes, avermelhados e vivos.
Eram os olhos dos lobos.
O Cavaleiro ouvia-os moverem-se em leves passos sobre a neve, sentia a sua respiração ardente e ansiosa, adivinhava o branco cruel dos seus dentes agudos.
Em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
E ao som destas palavras os olhos recuaram e desapareceram.
Mais adiante ouviu-se o ronco dum urso. O Cavaleiro estacou a sua montada e a fera aproximou-se. Vinha de pé e pousou as patas da frente no pescoço do cavalo.
O homem ouviu-o respirar, sentiu o seu pêlo tocar-lhe a mão e viu a um palmo de si o brilho dos pequenos olhos ferozes.
E em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
Então o bicho recuou pesadamente e grunhindo desapareceu.
E o Cavaleiro entre silêncio e treva continuou a  caminhar para a frente.
Caminhava ao acaso, levado por pura esperança, pois nada via e nada ouvia. As ramagens roçavam-lhe a cara e caminhava sem norte e sem oriente. O cavalo enterrava-se na neve e avançava muito devagar. Até que de repente parou. O homem tocou-o com as esporas mas ele continuou imóvel e hirto.
— Vou morrer esta noite — pensou o Cavaleiro —.Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações. E lembrou-se de Baltasar, Gaspar e Melchior, que tinham lido no céu o seu caminho. O céu aqui era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhuma voz nem se via nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.
Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.
— Deus seja bendito — murmurou o Cavaleiro —. Deve ser uma fogueira. Deve ser algum lenhador perdido como eu que acendeu uma fogueira. A minha reza foi ouvida. Junto dum lume e ao lado de outro homem poderei esperar pelo nascer do dia.
O cavalo relinchou. Também ele tinha visto a luz. E reunindo as suas forças, o homem e o animal recomeçaram a avançar.
A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma dum cone.
Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
— Que maravilhosa fogueira — pensou o Cavaleiro —. Nunca vi fogueira tão bela.
Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes.
Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.

Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros. (...)"

(O Cavaleiro da DinamarcaSophia de Mello Breyner)




segunda-feira, 20 de maio de 2019

Uma visita ao Museu Fábrica de Schindler

   Esta foi a minha segunda visita a este museu - a primeira foi no verão passado. Desta vez, regressei com os meus filhos. Aprender história a viajar, este é o lema de vida desta família! :-)
   O Museu localiza-se na fábrica original. Na altura tinha a denominação de "Fabryka Emalia Oskara Schindlera". Após o fim da guerra, foi nacionalizada e transformada em fornecedora de material de telecomunicações. Em 2002, a empresa fechou as portas, e três anos mais tarde, o edifício foi comprado e, mais tarde, transformado em museu, que é financiado apenas com verbas da cidade.
   A exposição permanente, intitulada "Cracóvia: ocupação entre 1939 e 1945", conta a história da cidade sob o domínio nazi. Toda a história da invasão, durante a Segunda Guerra, é contada de forma cronológica, desde o final de 1939 até à “liberdade” da época comunista na qual se viu submersa com o fim da guerra.

   A exposição começa numa sala repleta de fotografias, seguida de uma outra que retrata a Cracóvia dos anos 30.














  Todavia, essa atmosfera descontraída do pré-guerra, termina em 1939, quando os soldados alemães invadem Cracóvia. 
   Os alemães não tardaram a impôr as suas regras. Desta forma, começaram as proibições aos judeus, que não podiam andar de transportes, nem mesmo frequentar locais públicos, como bares, cafés, restaurantes, cinemas, lojas e mesmo parques!




   Os nomes de ruas e praças foram alterados, como foi o caso da praça principal da Cracóvia, que passou a chamar-se Alter Markt, em alemão, e posteriormente Adolf Hitler Platz.






   As universidades foram fechadas e os foram presos e deportados para os Campos de Concentração de Dachau e Sachsenhausen, na Alemanha.




   Em março de 1941, foi criado oficialmente o Gueto de Cracóvia. Cerca de 15 mil judeus foram obrigados a viver numa área onde, anteriormente, habitavam apenas 3 mil pessoas. Consequentemente, em cada apartamento moravam 4 ou 5 famílias!














  Os judeus foram obrigados a construir o muro que cercava o gueto. Já reparam nas fotos? o muro tinha o formato de lápides.. maldade levado ao extremo!
   Os judeus apenas tinham permissão para sair para trabalhar. Escapar? Quase impossível, já que haviam apenas 4 entradas e saídas sempre muito bem controladas pelos Nazis.







 




   Em 1942, os alemães resolveram fechar o gueto. Todos os judeus foram obrigados a deixá-lo, sendo enviados para os campos de concentração. Os que eram julgados inaptos para o trabalho iam direto para um campo de extermínio. Os que eram julgados aptos, como era o caso dos empregados de Schindler, iam para o Campo de Trabalho forçado de Plaszow.







   Quanto a história de Oskar Schindler, ela é contada no espaço onde antigamente funcionava o seu  escritório. 









No meio desta sala, há um grande cubo transparente, cheio de panelas, vasilhas e pratos de metal, que simbolizaa história do empresário e de seus funcionários. Dentro do cubo, estão os nomes de aproximadamente 1.200 trabalhadores judeus, cujas vidas foram salvas por Schindler.




Room of choises:




A exposição acaba com as fotos dos judeus que se salvaram por trabalhar na fábrica.







   Este é, sem dúvida, um dos lugares mais populares de Cracóvia e uma visita é imprescindível!

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Em Cracóvia

 
   Cracóvia é uma das minhas cidades de eleição. Estive lá no verão passado e fiquei rendida de imediato! É uma cidade cosmopolita e fervilhante, com mil actividades a acontecer ao mesmo tempo.
   Foram dias intensos. Muitos quilómetros percorridos a pé, em "tours" orientadas por guias fantásticos! Ficámos a conhecer  Cracóvia e a sua história de um modo bem mais profundo.








   É uma cidade intimamente ligada à Segunda Grande Guerra: é possível visitar a fábrica do Oskar Schindler, que é actualmente um museu, os escritórios e calabouços da Gestapo, o bairro judeu e antigos vestígios do terrível gueto, a famosa "Farmácia da Águia". E claro, o campo de concentração Auschwitz-Birkenau, que não fica muito distante da cidade de Cracóvia.

   Sendo o meu filho mais velho completamente apaixonado por este tema (sai mesmo aos paizinhos, Graças a Deus!), e estando ele a estudar esta matéria, achámos que seria o destino ideal para uma escapadinha num fim de semana prolongado. Ter a oportunidade de aprender história de um modo mais dinâmico, é abslutamente arrebatador!


O único pedaço que restou do muro que circundava o gueto




   Os fãs do filme "A Lista de Shindler" também procuram Cracóvia porque ter sido ali que o mesmo foi rodado, sendo por isso possível reconhecer alguns recantos onde algumas cenas foram gravadas.

   Por exemplo, lembram-se da cena, durante a liquidação do gueto, em que os soldados nazis arremessam malas e demais pertences dos judeus, de cima do balcão para o chão do pátio? e quando a Sra. Dresner, depois de ter escondido a filha sob algumas tábuas do soalho é apanhada por um amigo do seu filho, ali colocado pelas tropas para dar o alarme caso algum judeu tentasse escapar? mas que em vez disso, a escondeu sob as escadas e disse ao guarda que a área estava vazia? Pois bem, esse pátio localiza-se na Ul. Józefa 12, no bairro Kazimierz, o antigo bairro judeu. 

   



                                         









   Foco da cultura judaica durante séculos, o bairro Kazimierz foi uma das zonas que mais sofreu com a invasão nazi, já que viu grande parte da sua população deportada para o gueto, e, consequentemente, perdeu parte da sua vida e carisma. ~

   Actualmente, é um dos bairros mais populares da cidade. Tem uma energia única, fervilhante. Os edifícios, soturnos e antigos, testemunhas do tempo e de tantas histórias, contrastam com as cores alegres das lojas, cafés, galerias de arte, restaurantes que agora albergam. É o meu bairro favorito em Cracóvia, onde, inclusivamente, ficámos hospedados. 












   Foi nesse bairro que encontrámos uma livraria fantástica, instalada numa antiga sinagoga. É um local a não perder por todos aqueles que se interessam pela história do Povo Judeu.

(ul. Józefa 38)


Nós,  para não variar muito, regressámis a casa com as malas cheias de livros! :-)




Também visitámos as Minas de Sal (no verão não tinhamos conseguido). Irei dedicar um post inteiramente a elas.


   Por tudo isso vos digo para fazerem uma visita a Cracóvia, caso tenham oportunidade. As vossas expectativas não ficarão defraudadas.






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